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Vida “Normal” e Vida “Devocional”

Hoje sairei da sequência do livro Caminhos de Reconciliação para falar de caminhos de reconciliação na vida dos crentes. Não da vida toda, naturalmente, vou me concentrar num aspecto: o que temos chamado de “vida devocional”. Esse jeito de falar já sinaliza uma separação. Separamos a vida “cotidiana”, “normal”, da vida “devocional”. Isso pode ser só jeito de falar, sem dúvida. Mas pode também ser sintoma de, ou abrir caminho para coisa mais profunda.

Uma mostra de que o fazemos são os “ritos de passagem” que usamos, talvez sem consciência disso, para passar de um plano a outro. Por exemplo, enquanto não for feita uma oração e cantado um hino, o estudo bíblico “ainda não começou”. Claro, também isso pode ser um sinal de espiritualidade saudável, mas também pode não ser.

A inspiração para este texto surgiu na minha hora silenciosa hoje de manhã. Já há muitos anos acredito que um dos fatores mais poderosos de reavivamento nas igrejas é uma hora silenciosa regular e bem feita. Admito que essa opinião vai contra opiniões correntes nas nossas igrejas hoje. Afinal, sua receita tem tudo para não dar certo. Nenhum barulho, nenhuma fumaça, nada impressionante, ninguém vendo o que está acontecendo. A igreja está perdendo o que Jesus queria dizer com en tô kriptô (“no secreto”, Mateus 6:6). E com isso deixa de acionar uma das forças mais poderosas deste universo.

Corrida e parada
Reconciliar a corrida diária com um pit stop diário “no secreto”, é uma das coisas mais urgentes para todos os crentes que conheço (não sei de um ou uma que não enfrenta esse problema). A dificuldade de fazer isso, talvez sinalize que estamos nos aproximando de uma coisa que o Inimigo prefere que nem conheçamos, ou, se isso não for possível, que nos mantenhamos longe. E no entanto é coisa “tão simples”, tão básica. Talvez também valha para nós a palavra de Deus, através de Jeremias, a Baruque, num momento em que se pensava que “só milagres” poderiam nos salvar: “E tu buscas coisas grandes? Não busques; porque … a ti eu darei tua alma como despojo” (Jeremias 45:5).

Talvez também nós hoje precisemos aprender a ficar contentes com o fato de que “as misericórdias do Senhor … se renovam a cada manhã” (Lamentações 3:22-23); deixar de buscar “coisas grandes”, e ficar contentes que Deus nos dá a nossa alma como despojo na batalha diária da fé. Com isso já vou introduzindo outras dimensões da devocional diária, que igualmente passaram por separações, talvez sem que percebêssemos, e que por isso precisam ser reconciliadas.

Corpo e alma
Uma dessas dimensões é a do cuidado com a alma. Cuidamos da nossa alma, tal como talvez o façamos com o nosso corpo? Ou ainda pensamos os dois separadamente? A promessa para o pit stop diário é que Deus nos “dará a alma como despojo”, como sinal de vitória na batalha. Com nossa alma cuidada e fortalecida, com certeza a batalha diária será enfrentada de outras formas, e talvez tenha resultados diferentes ao fim do dia.
Outra dimensão da devocional diária é justamente a da “batalha”. Temos que cuidar com certas metáforas, especialmente com essa. Mas como ela é usada correntemente, e também na Bíblia, vamos usá-la. As referências acima, à batalha (o despojo) e ao Inimigo, deixam entrever que a hora silenciosa pode não ser coisa tão pequena. Que ali se trava uma batalha diária, é entendimento comum na Bíblia. Por que o esquecemos? Se não, por que não nos alistamos para ela?

Este texto está ficando mais comprido do que eu pensei. O que me levou a começá-lo, ainda não foi tocado, em sua substância. Vai ter que ficar para um outro dia. O que me levou, surgiu da leitura diária da Bíblia na minha hora silenciosa. O texto? Jeremias 44:6,7. O que me chamou mais a atenção na leitura desses versículos, disso falaremos na próxima. No momento, fica a reflexão sobre os caminhos de reconciliação na nossa vida diária, entre corrida e parada, entre cuidado com a alma e com o corpo (reconciliando-os!), entre leitura da Palavra e oração, entre meditação da Palavra e sua apropriação devocional.

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