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Desapego (2)

Rastros

Desde o início dos relatos bíblicos a narrativa nos mostra um Deus pronto a desfazer, desmontar, derrubar e começar de novo. Ele constrói um jardim e em seguida o abandona. Cria o mundo e o destrói no dilúvio. Vai até Abraão e o manda abandonar sua história e família em busca de algo novo. Depois retira o neto de Abraão do local onde Ele mesmo colocou seu avô e o leva ao Egito para em seguida, como que numa brincadeira sem graça, retirar o povo todo que cresceu no Egito para levá-lo de volta à terra do patriarca.

Como numa jogada sem pé nem cabeça, o Criador desfaz o que fez para depois refazer tudo – como a criança que desmonta o brinquedo todo só para poder montá-lo novamente. Nesse jogo de humor pouquíssimo sensato, Deus revela seu Espírito desapegado. O que importa, é a sensação que tenho, nunca é o que já foi feito, mas o que se poderá fazer em seguida.

Não é, como pode parecer superficialmente, um desapego irresponsável. Pelo contrário, é um desapego que demonstra que a única coisa realmente responsável a fazer é seguir sem deixar rastros. Olhar para trás é potencialmente um risco de nos cristalizarmos em estátuas de sal.

Originalmente publicado em: http://atrilha.blogspot.com/2009/08/desapego-2.html

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