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Desapego (3)

Meditações poéticas

Nuvem

Então entra na história uma estranha espécie de interlúdio. Uma pausa no roteiro. Descreve-se, no enredo do Velho Testamento, logo depois da saída do Egito, uma pequena metáfora da humanidade. Um arquétipo da história toda, da estranha proposta de Deus para o ser humano.

O destino final do povo escolhido prossegue sendo a ‘terra prometida’ mas, por causa da dureza de seu coração (portanto, do pecado), toda essa gente passa a ter que viver vagando pelo deserto. Vivem errantes, em cabanas, tendas e a presença de Deus é representada pelo engenhoso templo também errante conhecido como Tabernáculo. Nada permanece. Tudo é provisório. Peripatético. É fogo de noite, nuvem de dia.

“Sempre que a nuvem se levantava de cima da Tenda, os israelitas partiam; no lugar em que a nuvem descia, ali acampavam. Conforme a ordem do Senhor os israelitas partiam, e conforme a ordem do Senhor, acampavam. Enquanto a nuvem estivesse por cima do tabernáculo, eles permaneciam acampados. Quando a nuvem ficava sobre o tabernáculo por muito tempo, os israelitas cumpriam suas responsabilidades para com o Senhor, e não partiam. Às vezes a nuvem ficava sobre o tabernáculo poucos dias; conforme a ordem do Senhor eles acampavam, e também conforme a ordem do Senhor, partiam. Outras vezes a nuvem permanecia somente desde o entardecer até o amanhecer, e quando se levantava pela manhã, eles partiam. De dia ou de noite, sempre que a nuvem se levantava, eles partiam. Quer a nuvem ficasse sobre o tabernáculo dois dias, quer um mês, quer mais tempo, os israelitas permaneciam no acampamento e não partiam; mas, quando ela se levantava, partiam. Conforme a ordem do Senhor acampavam, e conforme a ordem do Senhor partiam. Nesse meio tempo, cumpriam suas responsabilidades para com o Senhor, de acordo com as suas ordens, anunciadas por Moisés.”
Números 9.15-23

Esse é o modelo de Deus para nós. O modelo da igreja. Não vivemos nós igualmente no deserto e pela dureza de nossos corações? E aqui, nesse penoso deserto, não caminhamos na esperança de alcançarmos a tão falada terra prometida (seja lá o que isso for)? As paradas, quando a nuvem estanca, quando o povo se senta, quando o tabernáculo é rapidamente armado, nada mais são do que um ‘meio tempo’. Não são jamais o destino final de quem quer que queira seguir a nuvem. Porque a nuvem é errante, levada pelo vento. Deus, assim como seu Filho, prossegue a jornada ininterrupta e ninguém sabe o caminho nem quando (ou se) vai chegar lá.

Originalmente publicado em: http://atrilha.blogspot.com/2009/08/desapego-3.html

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